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O que é que a dança do Brasil tem?

April 8, 2008 · 1 Comment

Tem samba e rebolado? Tem! Tem muito gingado? Tem! Tem sensualidade? Tem! Mas também tem diferentes facetas que projetam a imagem do país internacionalmente e dialoga com as percepções que os estrangeiros têm da nossa cultura. No último mês, os nova-iorquinos puderam conferir apresentações de duas companhias com a marca do trópicos: Grupo Corpo, diretamente de Minas Gerais e o DanceBrazil, sediado nos Estados Unidos.
Tanto o grupo brasileiro de dança contemporânea mais aclamado da atualidade, sob o comando de Rodrigo Pederneiras, quanto a companhia de raízes na capoeira, fundada pelo baiano Jelon Vieira, buscam inspiração nas múltiplas características da cultura brasileira para elaborar suas coreografias. Ambos foram calorosamente aplaudidos por platéias lotadas, mas o uso que cada uma faz dos elementos dessa identidade é bem distinto.
Breu, photo by Julieta Cervantes
Cassilene Abranches em Breu, foto de Julieta Cervantes

No Brooklyn Academy of Music (BAM), o Corpo apresentou um duplo programa com Benguelê, uma peça que já integra o repertório há 10 anos e trata justamente das origens e influências do povo brasileiro, misturando saltos de capoeira com a levada do congado, bem amalgamados pelo vocabulário consolidado pelo coreógrafo, ancorado na técnica do ballet clássico. Em movimentos que evocam a herança africana, os bailarinos andam com o torso dobrado sobre as pernas e os braços caídos ao longo do corpo, lembrando o andar de primatas. Outras vezes, flexionam o joelho e mergulham ao chão, alternando a perna de apoio, assemelhando-se a répteis. Embalando o contínuo ir e vir dos bailarinos, a empolgante trilha sonora composta por João Bosco especialmente para a dança.
Na segunda parte do espetáculo foi apresentada Breu, que estreou em 2007. Nela, Rodrigo explora mais intensamente novos planos e configurações dos 21 integrantes do grupo, com muitos rolamentos no chão, corpos trombando-se, jogando-se, pulsando. Os quadris também se mexem, mas num rebolado sombrio e desafiador. Desta vez, o som pesado mas ao mesmo tempo rico em referências, como o frevo, ficou a cargo de Lenine. Terno ou violento, explosivo ou reflexivo, Rodrigo sintetiza a energia (ou energias) do Brasil, criando uma obra complexa, que abre para platéia diferentes camadas de leitura. Esse efeito era visível, por exemplo, no intervalo, quando o público discutia ávido as suas interpretações e imitava os movimentos que acabavam de descobrir.
Dance Brazil 05
Dance Brazil em Retratos da Bahia, de 2005

No Symphony Space, o DanceBrazil estreou a coreografia Ritmo, dividida em dois atos. No primeiro, “The Dance”, os bailarinos começavam deitados em círculo e aos poucos iam inciando movimentos que pareciam um aquecimento, lentamente esticando os bracos, as costas, e depois executando contrações abdomnais típicas de técnicas contemporâneas, lembrando espasmos, à medida que ia se colocando de pé. Os 11 membros alternavam-se dançando em grupo, em duos e trios ao som da música composta por Tote Gira, um tanto monótona com um repetitivo toque de um instrumento que soava como um xilofone, misturado ao barulho de mar .
Na segunda parte, “The Capoeira”, os movimentos e as músicas tornaram-se mais vigorosos e as formações mais claras. Em um momento, os homens entravam ao som de samba em pequenos grupos no palco, formando círculos e diagonais num requebrado malemolente. Num momento seguinte, eles juntavam-se em um bando e desafiavam-se em saltos precisos e vertiginosos, exibindo-se um a um, arrancando coreografadas expressões de desdenho dos outros integrantes do grupo e espantadas exclamações de apreensão da platéia.
A única integrante mulher do grupo, Camila Santo Freitas (que por sinal possui técnica rigorosa), dançava quase sem distinção de gênero no primeiro ato, misturando-se aos pequenos grupos que se formavam e dissipavam, mas na segunda parte surgiu mais como um brinquedo dos homens, sendo arremessada e revirada à exaustão por dois dançarinos. Mais tarde, entrou para dançar um samba sensual, provocando seus parceiros com seu remexer de quadris, abandonando-os sozinhos no final do trio. A coreografia de Jelon não dá muito espaço a questionamentos; pareceu-me antes de tudo um veículo para ampliar o alcance dessa arte tão cara à Bahia. Uma coisa que não fica muito clara é por que, se a proposta é fundir luta e dança, comosugere o programa, cada um dos atos são nomeados separadamente “a dança” e “a capoeira”, apresentando uma divisão restritiva entre uma e outra?
Um dado interessante é que ambas as apresentações atraíram um público diversificado, tanto etnicamente quanto etariamente. Essas características são algo com que grandes companhias tradicionais da cidade como as de ballet clássico têm lutado para conseguir, à medida que vêem seu público, concentrado na classe média alta branca, envelhecendo e não se renovando. Cada um a seu modo, Grupo Corpo e DanceBrazil mostraram que há muita receptividade e ainda há muito a ser explorado neste canto do mundo pela dança brasileira.

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